Sororidade seletiva ou mito?

Uma senhora quis marcar consulta na clínica onde eu trabalho essa semana… Para o procedimento que ela queria, tinha dentista homem e mulher, e ela fez o seguinte “pedido”: – “Melhor marcar para o *****, acho que dentista homem tem mais competência para fazer isso sabe“. Meu! Eu estava distraída, seria mais uma conversa de balcão, mas eu olhei indignada para aquela moça, que nem sequer conhecia qualquer um daqueles profissionais! 

Se você caiu de paraquedas aqui no blog e como essa senhora (acredito eu), nunca ouviu o termo sororidade, eu explico, aliás, o Google: “Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum“. 

Do ponto de vista do feminismo, a sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal. 

Bem, não sei quem criou esse termo, mas desde a primeira vez que eu o ouvi, achei bem utópico. Mulheres preterem outras todos os dias! Se você fizer uma pesquisa, menos de 10% das mulheres vão dizer que preferem ser chefiadas por outras, mas isso é cultural, fomos ensinadas a sermos rivais, competir em todas as áreas, realmente não é fácil, o processo de desconstrução é lento.

Mexeu com uma, mexeu com todas“, esse slogan tem vinculado diversas mídias, traduzindo o significado do termo sororidade, mas na prática não é bem assim que funciona. Já ouvi diversas mulheres especulando que “decote” e “saia curta” são convites para o estupro, ou seja, para elas, a culpa é da vítima. O pior foi aonde eu ouvi tamanho absurdo, na sala da OAB. Quase vomitei. 

A tal união que o termo propõe, na minha percepção, apenas acontece em grupos que tem objetivo em comum, e não para o bem geral feminino. Sororidade entre a mina da zona sul e a da favela; entre a patroa e a empregada é mito! A parceira é seletiva e isso dói.

Percebo em alguns debates na rede social, inúmeras mulheres querendo silenciar outras, minimizar preconceitos que algumas sofrem, baseados nos privilégios que possuem. Sororidade entre mulheres brancas e negras, só funcionam até a página dois, essa é a realidade. Quando começamos falar das nossas dificuldades e portas fechadas ao assumir nosso cabelo natural, por exemplo, já surgem memes de “mimimi”, é frustrante! 

Eu não sou expert no assunto, nem tenho a pretensão de esgotá-lo, mas esse termo foi banalizado demais, precisamos conversar mais sobre isso. Discutir, desconstruir essa hipocrisia que paira no feminismo hoje. Não faça como aquela senhora! Não faça. 

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4 Comentários

  1. ai! você sempre fazendo valer minhas verdades!
    escrevi sobre isso há um tempo, pós mais um dos episódios desagradáveis da vida de mulher e negra: Teu feminismo me abraça?. faço parte dum coletivo de ‘minorias’ – sexualidade, gênero, raça… – na faculdade. atualmente, por enquanto, sou a única que me identifico como mulher, mas antes, tínhamos outra moça loira, de pele branca. diversas vezes que me pronunciava acerca do feminismo negro, sentia que ela não usava a empatia pra me ouvir – contraditório, pois tratarmos de feminismo no grupo. pra ela eu era ‘radical’ – e eu nunca generalizei os humanos brancos.
    pior, eu me senti mal por ela ‘ter saído por mim’…


    recentemente, não sei se viu, uma música com nome ‘nega branquinha’ de Mirow Cavalcante (só fui saber quem era, depois desse episódio). a letra da música, exalta a beleza da mulher branca, diz que é carinhoso chama-la de nega, que ela toma sol e volta a embranquecer, sua cor natural…
    eu vivi pra ler um comentário que dizia “até que enfim alguém se lembrou das branquinhas”, achei mais do que absurdo, um insulto. deu maior reflexo e as mulheres negras ‘apedrejaram’ a música (inclusive eu). a justificativa dele: “todos temos traços africanos”, a famosa afroconveniência né. enfim, brancos são aproveitadores em potencial, só tentam vestir a pele da ancestralidade quando lhes convém.
    ah, busquei pelo vídeo dessa musica e não encontrei mais…


    perdoe o texto!
    e infelizmente, não há debate saudável quando não há empatia.
    beijoca…

    1. Nossa Eli, sinto na pele sua dor! No dia que postei sobre a mulher negra no judiciário, compartilhei num grupo de advogados a qual faço parte, e fiquei de cara com os comentários! O título foi bem específico pois a situação é específica… E uma mulher me disse:

      ” Acho uma forma de reforçar o preconceito ficar distinguindo a mulher. Mulher negra é mulher e ponto. Como pregar igualdade se claramente separam a mulher negra das “demais mulheres”? N seria mais unificante n fazer tal distinção?”

      Reproduzi na íntegra, até printei de tão chocada que fiquei! Elas não entendem e pelo visto não tem a menor empatia de entender. Aí eu digo, que sororidade é essa? Só existe entre as mesmas classes e a mesma cor de pele, infelizmente!

  2. Muito verdade isso! Sempre fiquei mt indignada quando encontro mulheres, até dentro do próprio feminismo, desmerecendo as lutas umas das outras! Precisamos nos unir!

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