Porque não escrevo para crianças

Perguntaram se eu não escrevo para crianças. Depressa disse que não. Mas logo me peguei pensando, por que não? Foi tão espontâneo essa negativa, estranho. Na verdade, bem lá no fundo eu sei. Tenho medo. Imagina uma criança lendo meu eu. Sim, porque crianças lêem nossa alma. Elas nos desconcertam, nos inquietam,  desconstrói a gente num sorriso, num simples gesto. Elas descobrem nossos medos mais secretos, desmoronam nossas defesas com descaradas perguntas. O que eu poderia escrever para elas? Ah se soubessem… A grande verdade é que os adultos são muito mais inseguros que vocês, a diferença é o orgulho e a maquiagem. Disfarça quase tudo. Reparem que evitamos olhar nos olhos. Velha tática, para vocês não enxergarem nossa alma.

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É possível florescer na lama?

Outro dia passei pela rua e por certo tempo fiquei observando as árvores na beira da calçada. Uma em especial me chamou atenção. Era tão verde, tão viva, parecia de plástico de tão perfeita. Olhei ao seu redor e só tinha sujeira e lama. Como pode? Questionei. Lembrei da flor de lótus. A lógica da vida é que “somos produto do meio”, não é mesmo? Uma análise complexa em menos de um minuto de observação. Só pude concluir uma questão: somos aquilo que nos permitirmos ser. E quem dera de fato se nos permitíssemos… Ser aquilo que foi desenhado para nós desde antes da nossa concepção. Cumpriríamos nosso propósito, nossa missão. Independentemente de companhia e circunstâncias, sim é possível florescer na lama.

Ps. Na dúvida, observe a natureza.

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Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas

Quanto tempo não é mesmo?! Esses dias estava pensando sobre o longo processo que passei até me assumir “negra“, inclusive isso será um capítulo do meu segundo livro… 

“Demorou para eu entender,
Que as brincadeiras da infância inferiorizavam minha cor, minha identidade.
Ridicularizavam minha ancestralidade.
Me diz… Qual a graça em brincar de diminuir alguém?

Foi um processo longo até eu conseguir não mais me autodenominar
Morena, moreninha, cor de jambo, mulata…
Demorou para eu repreender quando me chamam de
Escurinha, “da cor”…
Negro, negra. Essa afirmação nos fecham as portas todos os dias”.

Hoje, entendendo e aceitando quem eu sou fica tudo mais fácil, mas nem sempre foi assim. Na infância e na adolescência eu me autodenominava “morena” ou no máximo “morena escura”, pensa! Chega me dar arrepios, sinto vergonha disso! Mas foi assim que aprendi, assim que me chamavam, nunca tive referência, representatividade sobre minha verdadeira identidade, ou se tive, não me recordo.

Posso dizer que fui uma negra “privilegiada”, exceto um ano e meio que estudei em escola pública, todo meu Ensino Fundamental e Médio foram em colégios particulares. Claro, eu era a cota, em uma turma de 40 alunos em média, 3, contando comigo eram negros. Normal né? Tem escolas que tem apenas 1 ou nenhum. Esse é o nosso cenário, um país miscigenado, mas quando você analisa direitinho, quem ocupa lugares “privilegiados”, em sua massacrante maioria, são pessoas não-negras. Por que será?

1996 – 2ª série primária

Enfim.. Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas. Já era péssimo eu não me “ler” como negra, mas pior ainda eram meus discursos: “não sinto-me discriminada, meus colegas de sala de aula cantam navio negreiro para mim, mas eu levo na brincadeira“, “sou contra as cotas raciais, a cor de pele não faz a pessoa menos ou mais capaz“. Eu “zoava” qualquer negro que tivesse a boca mais grossa que a minha, o nariz mais largo que o meu, a pele de tom mais escuro, o cabelo que não formava cachos… Colocava-me numa posição de superioridade sobre quaisquer aspecto físico que eu considerasse-me “melhor”, quer dizer, mais próximo do padrão eurocêntrico, dito como perfeito, correto. 

Hoje, quando ouço um negro chamando outro negro de “macaco”, penso, até quando vamos nos degradar, machucar. Até quando nós, negros, vamos achar que é “normal” brincar de inferiorizar o fenótipo do outro, comparar à animais. Fomos ensinados que isso é brincadeira, mas não é! Isso é violência. Se você faz isso, pare imediatamente com isso! Pare, por favor.

Aprendi na escola que racismo é mimimi e cresci acreditando nisso como verdade relativa, sim, porque eu tinha minhas dúvidas…  Eu fazia o que podia para ficar “socialmente aceitável“, isso era quase inconsciente, óbvio, quanto mais próximo ao padrão eurocêntrico eu me aproximasse, mais bem tratada eu seria. Quando criança, as pessoas são mais cara de pau, davam sempre um jeitinho de me fazer uma trança, mas quando cresci diziam que eu ficava “mais bonita” com o cabelo escovado. Já passou por isso amiga? Dói. O racismo em locais privilegiados é velado, mas não diminui em nada nossa dor. 

Já contei aqui como eu passei pela transição capilar, na verdade nem foi pelo fato de querer assumir meu cabelo natural, foi porque não aguentava mais alisar o cabelo. Mas depois que meu cachos começaram a brotar e eu perceber a reação e comentários de pessoas sem noção, eu entendi o que é ser negro nesse país. Percebi que anos convivendo em locais privilegiados me tornou cega e egoísta a ponto de ignorar a realidade que me cerca

Um não negro descendo o morro as cinco da manhã está indo trabalhar, mas se for um negro é revistado, haja vista que sua pele preta já o faz suspeito, afinal esse é o “esteriótipo de ladrão”. É fo**! Negro em lojas de grife, segurança fica de olho ou então é “gentilmente” encaminhado a seção de desconto pela vendedora. Mas surreal mesmo é quando o negro é o dono da marca e é barrado em desfile pelos próprios seguranças… Bizarro! 

O rapper Evandro Fióti denunciou um episódio de racismo durante esta edição da São Paulo Fashion Week, Em uma publicação no Facebook, ele explica que foi barrado por um segurança no desfile da Lab Fantasma, marca criada e administrada por ele e o irmão, Emicida. “Ser preto é ser barrado pelo segurança do evento até mesmo quando é da sua marca e com pulseira…”, escreveu.

No primeiro desfile da LAB, o Emicida cantou”Fiz com a passarela o que eles fez com a cadeia e com a favela… Enchi de preto“. Manas, já assisti esse desfile umas 10 vezes, e me arrepiei e chorei todas elas. Sei que não tive culpa de ter negado minha identidade durante anos da minha vida, mas sinto vergonha, há eu sinto! Deus é tão bom que me permitiu passar por todo esse processo para que hoje, na posição de advogada, entre olhares tortos dentro do fórum por causa do meu cabelo, eu ter a capacidade de identificar quem é preso porque delinquiu e quem é preso por ser “da cor”. 

A carne negra é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares.

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Tempo Indigesto

Debruçados na espera,
A noite retarda seus ponteiros.
E a cada tic-tac abafado,
Torna-se um transtorno no travesseiro.

Quem tem foco, não anseia,
Pois já tem a certeza do que o espera.
caminhos traçados por Deus…
E não há quem revele, os mistérios Seus.

Lembranças, nem sempre coloridas.
Cicatrizes do tempo,
Contam a história de um guerreiro.

Que não desiste, não contesta e nem murmura.
Apenas crê no amanhã, perfeitamente desenhado pra ele,
Desde a fundação do mundo.

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Contudo, off-line é bem melhor…

Reúne os amigos, faz pipoca de panela, junta, tira foto!
Viaje com eles, de boa, desliga o celular.
Extasie-se com a brisa do mar, põe um som pra tocar…
Aqueça-se na fogueira cantando canções que vier à mente.

Delícia é olhar no olho, tocar a pele,
Bom mesmo é um abraço apertado, diferente de um emotion na tela.
Nostalgia uma sessão de cinema, dominó, dama, paciência!
Saudade das gargalhadas desesperadas da adolescência.

A vida modernizou… Claro!
Veio o twitter e tornou tudo tão vago
Tornou-se vício, postar realidades falsas no Insta.

Tem disputa de ego na web, deu curto na rede!
Estar on-line virou quase obrigação.
Contudo, off-line é bem melhor.

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