Relatos de um coração em transição capilar

Calor infernal! Ela esta ali, empenhada na frente do espelho, com seu secador e a escova jeitosamente encaixados entre os dedos. O ventilador até que alivia, mas quando chega a hora da prancha, ela desliga. Transpira, respira, reclama, deprimida. Acabou. A tortura chegou ao fim, agora ela está “esteticamente aceitável”. Lamentável.

Ela se olhou de verdade. Seu cabelo religiosamente esticado, o mais próximo que podia dos padrões da mídia. Parecia que estava aprisionada. Anos, nem os viu passar… Presa a um estereótipo estrangeiro. Chega! Um grito de liberdade. Foi a ultima vez que tentou deturpar seus fios.

E agora, como vai ser? Ousaram perguntar. E não era pra menos. Ela acaba de descobrir quem é. Sua essência, sua natureza, sua beleza. Mulher guerreira! Empoderada, assumida, liberta de toda opressão e paradigmas. Claro, isso ainda é um mantra que ela repete pra si mesma todos os dias, enquanto vê seus fios crescerem, seus olhos brilham no espelho. 

Preta, que orgulho! Tem se formado uma identidade, uma nova consciência do seu eu. Dia após dia, ela caminha na desconstrução da superficialidade. Tem uns cachos brotando, mas se olhar direitinho vai perceber que na frente a textura é crespa. Tudo bem, a gente entende que do meio pras pontas ainda tem resquícios de insegurança.

Foto: Desventuras de uma Cacheada

Avante menina! Faz carão e viva! Tenha amor ao seu cabelo, a sua cor, a sua história. Tem medo de que? O racismo te encurrala? Passe por cima dele de salto e de black power. Sim, você pode. Queremos representatividade!

Falando nisso… Mamães façam seus filhos resistentes ao preconceito! Deixa o crespo da cria subir, deixa os cachos saírem do lugar. Por que querem a todo tempo arrumar? Deixa brincar. Digam que são lindos assim, de black, nagô, solto, penteado… Ensine-os a não ficarem calados, se verem alguma “cara emburrada”. E o mais importante, sejam referência em casa. Assuma-se sem culpa e sem desculpas.

Não é fácil. Eu sei. Mas tem algo dentro de nós que muda, e cresce, e floresce. Uma liberdade, uma leveza que contagia. Sororidade. Aonde tivermos vamos te abraçar num olhar, num sorriso. Você não está sozinha. Dê o primeiro passo, desconstrua-se. O processo é longo, dolorido às vezes, mas é necessário. Sossegue essa ansiedade. É de dentro pra fora. A transição começa aqui, no coração.

 

 

 

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A hipersexualização da mulher negra

Faz tempo que estou para falar sobre o assunto. A hipersexualização da mulher negra não é algo evidente apenas no “carnaval carioca”, mas em todo tempo, em todos os meios! Contudo, pior do que o rótulo de “mulata tipo exportação” é ver crianças, adolescentes (e aqui digo negras e não negras), principalmente de áreas periféricas, se hipersexualizando por acharem que assim, vão ser queridas, desejadas ou no deturpado pensamento de alguns… “empoderadas”.

Conta-nos Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala que, havia um ditado corrente no Brasil patriarcal a respeito das mulheres: “branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar”.  

Ps. pensei em “amenizar” a frase, mas decidi deixar na íntegra pois não “amenizam” nossa dor, não é mesmo? Agora diga-me, mulher de 2017, sinceramente, esse ditado do Brasil patriarcal, mudou algo hoje em dia? (Deixa sua resposta nos comentários, por favor).

Eu poderia relatar vários casos aqui… Exemplo a “Globeleza“, que no último carnaval apareceu coberta, para surpresa de todos. A mulata tipo exportação para gringo ver, veio repaginada este ano. Houve comemoração por parte de mulheres que se sentiam aviltadas com o que consideravam “objetificação do corpo feminino”, houve quem considerasse a decisão da emissora um reflexo de uma onda conservadora no país, ou seja, uma linha muito tênue que separa a hipersexualização da liberdade de expressão.

Nas zonas nobres da cidade do Rio, mulher negra “do corpão” andando na orla da praia, é constantemente abordada por gringos como prostituta. Por que será? Uma cultura infeliz enraizada em nosso país, e ainda  há quem diga que esse assunto é “mimimi”.

Propaganda alvo de ação judicial teve por unanimidade a seguinte decisão: “Com base no raciocínio que construí, entendo que a propagada apresentada não se inclui como ofensiva ou discriminatória”. Pasmem!

A sensação é de impotência, surreal manas! Vemos nossos corpos negros expostos como objeto de desejo, e a “justiça” diz que “está certinho”, “sem problema algum”. Como está escrito na primeira imagem:  “Não deixem que te façam pensar que o nosso papel na pátria é atrair gringo interpretando mulata“. Preta, se você tem “corpão”, “bundão”, que bom! Mas você é bem mais que isso viu?!

Num outro cenário não tão distante, observo crianças e adolescentes, tendo sua infância erotizada, a maioria negras e de regiões periféricas, sendo bombardeadas diariamente por conteúdos que as fazem se hipersexualizarem, muitas vezes apoiadas ou incentivadas pelos próprios pais.

As meninas, por outro lado, são incitadas a se hipersexualizarem para chegarem a uma feminilidade hegemônica”  diz Maria Luiza Heilborn, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ou seja, o recado da mídia é: quando mais “gostosa” a mulher for, mas poder ela terá.

É deprimente! As consequências são bem mais profundas do que se espera, não trata-se apenas de crianças vestidas como adulto ou um adolescente com roupas excessivamente sensuais, é todo um despertar psíquico e comportamental de forma PRECOCE para uma vida sexual, por exemplo. 

Não é a violência que cria a cultura, mas é a cultura que define o que é violência. Ela é que vai aceitar violências em maior ou menor grau a depender do ponto em que nós estejamos enquanto sociedade humana, do ponto de compreensão do que seja a prática violenta ou não”, diz Luiza Bairros, doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan e ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir).

Pais, tenham cuidado com seus filhos, eles tem vocês como o primeiro exemplo.

Não tive a pretensão de esgotar o assunto, mas o trazer à tona para que possamos juntos refletir… Vamos ter consciência de que nosso corpo não é bagunça e que nossas crianças tem direito de serem crianças! Não incentive nem permita que essa infância seja deturpada, que a “inocência” seja precocemente extinta, por favor.

 

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Rafael Braga – Mais um na estatística do nosso sistema penal racista e seletista

Rafael Braga, o único condenado nas manifestações de junho 2013.

Na audiência de ontem, terça, dia 01/08/2017, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, dois desembargadores votaram pela manutenção da prisão e um pediu vistas. 

Você o conhece?

Rafael é um homem, negro, pobre e na época, catador de produtos para reciclagem, não estava participando das manifestações, mas foi preso e condenado a 5 anos de reclusão em regime fechado, por “acharem” que “supostamente ele “poderia” produzir um coquetel molotov, por estar com uma garrafa de “Pinho Sol” (desinfetante) e uma de cloro. Pasmem!

O lauto técnico do esquadrão anti-bomba concluiu que, o material (Pinho sol e o cloro) tinha mínima aptidão e ínfima possibilidade de funcionar, ou seja, NÃO ERA INFLAMÁVEL! Ainda assim, a condenação por “porte de aparato incendiário ou explosivo” foi mantida. Essa é a nossa “justiça“.

Em dezembro de 2015, a defesa recorreu e conseguiu o “benefício” do regime semi-aberto, onde Rafael passou a ser monitorado por uma tornozeleira eletrônica, em outros termos, passou a “andar carimbado“. Teoricamente essa medida é mais benéfica ao réu, mas quando há o detalhe do cidadão ser negro, pobre e morador de favela… Aí amigo, é tenso!

Certo dia, Rafael foi comprar pão para sua mãe, no Complexo do Alemão (comunidade no bairro da Vila Cruzeiro) quando foi abordado por policiais que ao verem seu “carimbo“, o questionaram o “porque da tornozeleira“, segundo seu depoimento, ele respondeu que “estava respondendo por manifestações”. Não satisfeitos, os policiais o indagaram a respeito do tráfico de drogas em sua localidade, mas a resposta de Rafael não agradou – “não posso ajudar pois não conheço quem é do tráfico“.

Estava assinado mais uma condenação. Rafael narra que, os policiais descontentes por ele “não poder colaborar”, o agrediram e o prenderam, além de “plantarem” um rojão, 0,6g de maconha e 9,3g de cocaína em sua conta. Normal, né? O famoso “flagrante forjado“.

Resultado: condenado a 11 anos de prisão, mais multa de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais). Observações: depoimentos contraditórios dos policiais, única testemunha de defesa ignorada. Aplicação da lei? Não! É seletividade do sistema penal

Vamos rasgar a Lei de Drogas (11.343/06), porque o que de fato determina se a pessoa é usuária ou traficante, não é a quantidade, não é! É a sua cor de pele, sua classe social, acredite! Pesquisas demostram que a mesma quantidade de drogas em áreas nobres da cidade é tida como “uso”, mas em regiões “periféricas”, como “tráfico”. 

Rafael foi preso sozinho, com R$ 3,00 (três reais) no bolso, sem qualquer prova de associação ou permanência em local que pudesse caracterizar venda, e uma série de questões infundadas que evidenciavam o flagrante forjado em que ele foi submetido, mas nada disso foi suficiente para provar que o negro, pobre, favelado é inocente! Dói.

A luta continua! #LibertemRafaelBraga

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5 coisas que não podem faltar no seu blog!

Eu costumo ler muitos blogs por semana, mas já deixei de comentar em vários por não achar o lugar… Poxa, facilita galera! Como blogueira e principalmente leitora, acredito que alguns itens são essenciais e não podem faltar de jeito algum em nossa página.

🗣 SOBRE VOCÊ

Quero entrar no seu blog e saber quem está escrevendo, quero ver sua foto! Um breve texto falando “sobre você é simpático, profissional e com toda certeza faz a gente querer saber mais (ou não) sobre o seu trabalho. Parece bobagem, mas tem páginas que já entrei e saí sem conseguir saber de quem era, e eu procurei, sério!

🗣FACILITA O FEEDBACK

Mesmo caso acima, dificuldade para achar a caixa de comentários. Eu sei que há alguns layouts que são mais complicados mesmo, mas sugiro fazer um teste na sua própria página. Se você gastar mais de 30 segundos para conseguir comentar um post, tem algo errado! Resolva, está perdendo leitores. Facilita pra gente, por favor.

🗣REDES SOCIAIS

Se realmente tiver o interesse de divulgar suas redes sociais, deixem elas visíveis em sua página! Pelo menos aquelas que mais utilizam, não coloque o ícone para redirecionar, e sim aquele que possibilita seguir/curtir direto.

🗣CONFORTO NA LEITURA

Desânimo que me bate é quando eu entro em um blog e o layout é escuro, chamativo ou poluído ao ponto de dificultar ou cansar minha leitura. Somente se o conteúdo for realmente do meu interesse eu leio até o final, do contrário, eu saio.

Essa é uma preocupação que eu como blogueira sempre tenho, proporcionar conforto visual para meus leitores. Não é apenas uma questão estética, é de saúde, principalmente. O cuidado com a cor, tamanho da fonte, layout limpo e organizado do blog é essencial, além de manter por mais tempo a interação dos seus leitores em sua pagina.

🗣FORMULÁRIO DE CONTATO

Outro item indispensável é o formulário de contato. Às vezes queremos entrar em contato com o(a) blogueiro(a) para fazer um convite, solicitar informações ou indicar uma correção por exemplo, e não há espaço para isso, haja vista que nem sempre a área de comentários dos posts é o local mais adequado. Então, sugiro a vocês se ainda não tiverem, colocarem. Nós, leitores e blogueiros, agradecemos.

 

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Tarde de autógrafos no Colégio Estadual José Francisco de Salles

Essa semana recebi um convite da biblioteca Eudóxia Manhães de Salles, do Colégio Estadual José Francisco de Salles, para prestigiar a primeira tarde de autógráfos das crianças e adolescentes.

Um projeto inspirador! Cada aluno fez um livrinho, contando histórias e poemas… Pude contar um pouco da minha experiência como escritora, desde o tempo que escrevia em folhas soltas e escondia meus escritos, até a publicação do meu livro e a criação do blog.

Liana Vilaça dos Santos

Eu recebi alguns exemplares das crianças e num deles dizia:Ananza, obrigada por me fazer acreditar. Ps. Continue a acreditar“. Tem noção? Isso não tem preço!

Em casa, lendo os livros, me emocionei de verdade! A simplicidade, a verdade do olhar e da fala da criança, faz reviver em nós aqueles sonhos estagnados, esquecidos.

Liana escreveu: “Eu e minhas amigas“, com tão pouca idade, ela já aprendeu a compreender e a respeitar as diferenças das pessoas que ama, e olha o quanto de adulto nesse mundo ainda não aprendeu isso heim! Parabéns Liana!

                     

Joana da Costa Gonçalves

Joana escreveu sobre “A Raposinha Solitária“, um texto que nos inspira a acreditar que nossa história, por pior que seja, pode ser mudada! Obrigada Joana.

Ludymila contou sua “Viagem ao Rio de Janeiro“, a cada descoberta, surpresa e alegria ela registrava, mas também não era para menos né?! Rio

Minha gratidão à Natale Vaz e a Isabela Levisky que me convidaram para esse maravilhoso trabalho!

E a Baurete Barreto, que participou da coletânia “Jofransa e Poesia“, foi um prazer conhecê-la, com toda certeza em breve estarei prestigiando o lançamento do seu primeiro de muitos livros!

 

Ludymila Costa Gonçalves

 

Meus parabéns a todos que participaram da exposição, tanto aos que eu pude conhecer, quanto aos que não puderam estar presente!

E um conselho: Não desistam dos seus sonhos! Vocês são todos capazes 😍

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