Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas

Quanto tempo não é mesmo?! Esses dias estava pensando sobre o longo processo que passei até me assumir “negra“, inclusive isso será um capítulo do meu segundo livro… 

“Demorou para eu entender,
Que as brincadeiras da infância inferiorizavam minha cor, minha identidade.
Ridicularizavam minha ancestralidade.
Me diz… Qual a graça em brincar de diminuir alguém?

Foi um processo longo até eu conseguir não mais me autodenominar
Morena, moreninha, cor de jambo, mulata…
Demorou para eu repreender quando me chamam de
Escurinha, “da cor”…
Negro, negra. Essa afirmação nos fecham as portas todos os dias”.

Hoje, entendendo e aceitando quem eu sou fica tudo mais fácil, mas nem sempre foi assim. Na infância e na adolescência eu me autodenominava “morena” ou no máximo “morena escura”, pensa! Chega me dar arrepios, sinto vergonha disso! Mas foi assim que aprendi, assim que me chamavam, nunca tive referência, representatividade sobre minha verdadeira identidade, ou se tive, não me recordo.

Posso dizer que fui uma negra “privilegiada”, exceto um ano e meio que estudei em escola pública, todo meu Ensino Fundamental e Médio foram em colégios particulares. Claro, eu era a cota, em uma turma de 40 alunos em média, 3, contando comigo eram negros. Normal né? Tem escolas que tem apenas 1 ou nenhum. Esse é o nosso cenário, um país miscigenado, mas quando você analisa direitinho, quem ocupa lugares “privilegiados”, em sua massacrante maioria, são pessoas não-negras. Por que será?

1996 – 2ª série primária

Enfim.. Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas. Já era péssimo eu não me “ler” como negra, mas pior ainda eram meus discursos: “não sinto-me discriminada, meus colegas de sala de aula cantam navio negreiro para mim, mas eu levo na brincadeira“, “sou contra as cotas raciais, a cor de pele não faz a pessoa menos ou mais capaz“. Eu “zoava” qualquer negro que tivesse a boca mais grossa que a minha, o nariz mais largo que o meu, a pele de tom mais escuro, o cabelo que não formava cachos… Colocava-me numa posição de superioridade sobre quaisquer aspecto físico que eu considerasse-me “melhor”, quer dizer, mais próximo do padrão eurocêntrico, dito como perfeito, correto. 

Hoje, quando ouço um negro chamando outro negro de “macaco”, penso, até quando vamos nos degradar, machucar. Até quando nós, negros, vamos achar que é “normal” brincar de inferiorizar o fenótipo do outro, comparar à animais. Fomos ensinados que isso é brincadeira, mas não é! Isso é violência. Se você faz isso, pare imediatamente com isso! Pare, por favor.

Aprendi na escola que racismo é mimimi e cresci acreditando nisso como verdade relativa, sim, porque eu tinha minhas dúvidas…  Eu fazia o que podia para ficar “socialmente aceitável“, isso era quase inconsciente, óbvio, quanto mais próximo ao padrão eurocêntrico eu me aproximasse, mais bem tratada eu seria. Quando criança, as pessoas são mais cara de pau, davam sempre um jeitinho de me fazer uma trança, mas quando cresci diziam que eu ficava “mais bonita” com o cabelo escovado. Já passou por isso amiga? Dói. O racismo em locais privilegiados é velado, mas não diminui em nada nossa dor. 

Já contei aqui como eu passei pela transição capilar, na verdade nem foi pelo fato de querer assumir meu cabelo natural, foi porque não aguentava mais alisar o cabelo. Mas depois que meu cachos começaram a brotar e eu perceber a reação e comentários de pessoas sem noção, eu entendi o que é ser negro nesse país. Percebi que anos convivendo em locais privilegiados me tornou cega e egoísta a ponto de ignorar a realidade que me cerca

Um não negro descendo o morro as cinco da manhã está indo trabalhar, mas se for um negro é revistado, haja vista que sua pele preta já o faz suspeito, afinal esse é o “esteriótipo de ladrão”. É fo**! Negro em lojas de grife, segurança fica de olho ou então é “gentilmente” encaminhado a seção de desconto pela vendedora. Mas surreal mesmo é quando o negro é o dono da marca e é barrado em desfile pelos próprios seguranças… Bizarro! 

O rapper Evandro Fióti denunciou um episódio de racismo durante esta edição da São Paulo Fashion Week, Em uma publicação no Facebook, ele explica que foi barrado por um segurança no desfile da Lab Fantasma, marca criada e administrada por ele e o irmão, Emicida. “Ser preto é ser barrado pelo segurança do evento até mesmo quando é da sua marca e com pulseira…”, escreveu.

No primeiro desfile da LAB, o Emicida cantou”Fiz com a passarela o que eles fez com a cadeia e com a favela… Enchi de preto“. Manas, já assisti esse desfile umas 10 vezes, e me arrepiei e chorei todas elas. Sei que não tive culpa de ter negado minha identidade durante anos da minha vida, mas sinto vergonha, há eu sinto! Deus é tão bom que me permitiu passar por todo esse processo para que hoje, na posição de advogada, entre olhares tortos dentro do fórum por causa do meu cabelo, eu ter a capacidade de identificar quem é preso porque delinquiu e quem é preso por ser “da cor”. 

A carne negra é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares.

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6 Comentários

  1. adorei me si tô representada e me vi em muitas coisas que li continue escrevendo e agraciado nossos olhos e pensamentos dando voz ao subconsciente de muitas que como eu e vc acordaram pra vida . vou já Procurar sei livro 😘

    1. Oi Elimari! Seja muito bem-vinda ❤ Fico muito feliz que tenha gostado, de fato eu demorei muito para abrir os olhos, mas hoje tenho consciência de que preciso alertar outras pessoas que inconsciente agem da forma que eu água, simplesmente por terem aprendido assim…
      Gratidão pela sua visita, volte sempre! ❤😘😘😘

      Ah, sobre meu livro, o primeiro se chama Minha Vida Contada em Poesia, que conta sobre meu testemunho de vida. Mas o segundo livro, que ainda está em construção será sobre todo esse processo de me “ler negra”.

  2. Uma.bela reflexão sobre a nossa sobrevivência!! São muitas barreiras visíveis e invisíveis, mas que certamente iremos ultrapassá-los.
    Parabéns pela visão!!

  3. Definitivamente racismo não é mimimi, e crianças não deveriam ser más. os pais deveriam educá-las desde cedo a fim de que entendessem que todos são iguais. Seus textos sempre surpreendendo. Continue escrevendo assim! Deus a abençoe!!

    1. Pois é Dani, educação se aprende em casa. Mas na maioria das vezes, racismo também é ensinado em cada. A criança ouve os pais fazendo “brincadeirinhas” com pessoas negras e eles reproduzem na escola, no meio em que vivem. É triste.

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