Na minha pele – Lázaro Ramos: minhas impressões

Ganhei de presente do meu tio, pena que não chegou a tempo de levar na Bienal para o Lázaro autografar.

Na Minha Pele não é uma autobiografia, como ele mesmo diz. Mas trata-se se um coletivo de vivências, de forma muito franca e consciente.

Demorei um pouco para terminar, estou enferrujada. Antigamente eu devorara livros e livros num só dia, mas depois que ler passou a ser obrigação, eu desanimei. Enfim, fazia muito tempo mesmo que eu não lia um livro inteiro que não fosse jurídico, mas a “viagem”, como o Lázaro chama, me tirou do eixo, foi emocionante, surpreendente e o melhor, me fez perceber o quase nada que sei sobre mim mesma.

Nunca fiz resenha de um livro, mas vou dar minha sincera opinião.

Logo no início um trecho encheu meu coração de esperança: “Sou uma exceção, e história de exceção só confirma a regra. Fazer mais um livro sobre o ponto de vista de uma exceção não ajuda em nada a questão da exclusão dos negros no Brasil. Meu Deus, como fazer um relato quase autobiográfico sem tornar o texto uma apologia a mim mesmo e a meus pares um pouco mais bem-sucedidos?”

Li umas 4 vezes e fiquei uns minutos pensando… Cara! Não esperava menos do Lázaro (como se eu o conhecesse hahaha), mas a pessoa o qual ele se mostra na tela da minha TV, estava ali “comigo” naquele livro, mostrando suas entranhas (acredito que a escrita revela muito mais do ser humano do que a fala) e ratificando toda sua humildade e consciência na medida certa de quem ele é, e do que representa na sociedade. Lázaro, gratidão! Torceria o nariz se você viesse com aquele discurso “se eu consegui, você também consegue”. Mesmo que lá no fundo a gente saiba que até poderíamos, o que ele disse, faz a gente chegar bem mais perto do “céu”.

Ele começa contando sobre sua infância na Ilha do Paty – Salvador/BA, sua formação familiar, suas raízes e a construção da sua autoestima. Até então, ele não havia “sentido na pele” o que era ser negro em nosso país. Como muitos de nós, até sairmos da nossa “zona de conforto”. Contudo, a rejeição na fase escolar, logo o inseriu nesse processo…

Relata com sensibilidade, questionamentos e força de vontade, sua trajetória como ator ( e aqui ele nos faz raciocinar: “ator negro” ou simplesmente “ator”?).

Já depois da metade do livro, a gente ratifica em nosso coração que “Nosso lugar é aonde nós sonharmos estar” e concordamos que “Mesmo quando tentamos esquecer que somos negros, alguém nos lembra”.

Lázaro me surpreendeu, quando contou sobre a recusa de trabalhos que tivesse que usar arma de fogo. “Fugiu” de papéis onde ele seria o negro escravizado ou marginal, por exemplo. Aí eu fiquei pensando, que “recado” eu tenho passado ou deixado de passar (o que é pior) na minha profissão (e pense na sua também, leitor), conclusão: senti vergonha de mim.

Chegando ao fim, Lázaro mostra que está bem antenado em temas como: empoderamento, sororidade, representatividade e solidão da mulher negra, diariamente “gritados e sussurrados” na blogosfera e no Youtube, pelos influenciadores digitais, que foram gentilmente citados por ele (precisamos de voz).

Até então, eu estava o achando bastante polido com os não negros, mas os momentos finais da “viagem” foram de revirar o estômago… “Não é natural as pessoas de tez mais escura serem maioria nos presídios, favelas e manicômios“. “Um negro se dá conta da sua etnia a cada olhar que recebe (de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de pena) ao entrar em um lugar“. Lázaro cita dados sobre o genocídio da população negra – “dos 30 mil jovens mortos no Brasil, 77% são negros. Caro leitor, você acha isso “mera coincidência”? “Mulheres negras recebem menos anestesia, pois seria mais resistentes à dor“. Nesse momento, se os leitores não negros não compreenderam a dimensão “da coisa toda”, aqui o Autor faz questão de deixar bem claro!

“Meus amados amigos brancos, vocês tem, sim, que pensar muito sobre isso ao educar seus filhos. Afinal, eles têm que ter o compromisso de tornar toda essa merda um lugar um pouco melhor. Têm que saber que tem gente que recebe tapa na cara de polícia com dez, doze anos de idade, só por uma suspeita”.

Não me lembro de ter sorrido muito nesse livro, afinal, falar de dor não tem graça. Conforta-me saber que hoje tem alguém dando voz à comunidade negra, que não é só eu que fico sem respostas (indignada) quando algum negro vem sem qualquer empatia falar sobre sua “história de exceção”, fico feliz demais em saber que tem um negro reconhecido internacionalmente (graças a Deus), lutando por nós (Sim! Este livro desmorona muros, outrora inalcançáveis), meros mortais. 

Parece óbvio, mas não é. Neste livro descobri que você “é de verdade”. Gratidão Lázaro!

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4 Comentários

    1. Haha, puxa que bom Kelly! Se você gostou é porque está legal mesmo 😍
      Quando eu ler outro livro bacana eu faço resenha sim. Gratidão ❤

  1. Ei Ananza, vi sua postagem via twitter do Lázaro Ramos (que bacana,hein!) e também me senti mexido com o livro. Nos faz pensar…pensar…e pensar. Bacana demais como ele se apresenta e nos apresenta um tanto de coisas novas. A leitura traz outras sugestões de leituras de pessoas que vale a pena conhecermos. Adorei. A mexida foi boa. O caldeirão de ideias que ele traz pra gente e muito rico. Um grande abraço. César.

    1. Oi César! Muito obrigada pela visita. É verdade, foi diferente de tudo que já vi, já li. A gratidão dele em citar as pessoas, as fontes, sugerir livros (alguns anotei para comprar)… Aliás, quando ele me respondeu no Twitter, eu fiquei toda boba! Hahahaha. Como você disse, o livro é um caldeirão de ideias, que nos faz refletir em todo tempo. Temas que não terminam com o final do livro, na verdade, pra mim algum apenas começaram. Impossível não gostar né?

      Volte mais vezes! Abraços.

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