Consciência Negra?

Curioso que, nos últimos anos essas palavras tem feito mais sentido do que nunca…

Se a gente reparar bem, as crianças negras de hoje, principalmente as meninas, já nascem empoderadas por seus pais, graciosamente enfeitadas com mini turbantes, e de presente recebem bonecas pretas, de cabelo crespo para brincarem. Crescem e dispõem de variedades de literatura onde elas realmente se vêem representadas. Cenário esse, que nem sempre foi assim.

Consciência negra, no sentido literal, não é algo que poderíamos afirmar que tínhamos uns tempos atrás. Digo por mim mesma! Me lia como “cor de jambo”, “moreninha” “morena escura”, mas NeGRA, isso eu não dizia jamais.

O reflexo disso é extenso… Lembro da minha visita a Salvador/BA, meu berço familiar patern e da importância que eu NÃO dei a história da minha ancestralidade.

Vinte anos relaxando a raiz do cabelo, deturpando meus fios e não aceitando quem de fato, eu sou. E nesse ponto, precisamos sempre enfatizar, que uma negra de cabelo liso quimicamente tratado, em 99% dos casos, não é uma questão de gosto! É um casulo, uma estratégia para sermos “melhor aceita” na sociedade, onde o padrão de beleza até hoje é eurocêntrico.

Estamos evoluindo, não posso negar! Já podemos encontrar em lojas populares cosméticos para o nosso “tom de pele” (e viva o colorismo!). Falando em tonalidades, vocês viram a edição de “cor de pele” que a marca brasileira PintKor fez? Achei o máximo!

Mas o que me preocupa, é  a quantidade negros que ainda não tem essa “consciência”, que fazem dos seus privilégios uma regra e não a exceção. Que não param, ao menos por um minuto para olhar entorno, e ter o mínimo de empatia.

A cor da nossa pele não nos torna inferior ou superior, né? Mas deixa seu black crescer, e vai de havaianas numa loja de grife, apenas “dar uma olhadinha” nas roupas. Disfarçadamente, conta quantos seguranças e vendedoras vão te seguir fixamente com os olhos. Coisa da nossa cabeça não é mesmo?

Episódios de racismo são diários, inúmeros, insistentes e covardes. Mas o dia de hoje é para eu e você não esquecemos de quem somos, da onde viemos, onde estamos, e onde precisamos chegar.

Ainda bem que meu e seu filho, já nascerão com essa consciência. Porque estamos lutando para isso, certo?

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Mina preta

Uma infância de apelidos, pensava que era normal,
Seu cabelo, suas formas odiava por não ser “tradicional”,
Cresceu preterida, mais uma na estatística da solidão…
Sororidade irmã, tamo junto nessa desconstrução.

Uma mídia elitista, machista incita a cultura da mulata tipo exportação,
No carnaval somos musas, mas liga a TV e conta quantas pretas aparecem, tirando as empregadas e histórias da escravidão.

Racismo velado? Só se for pra você, mina de pele clara, traços finos, cabelo alisado, esteticamente aceitável… Salve, salve o colorismo nega!

Agora, deixa teu black crescer, põe seu turbante e dá um rolê pra tu ver…
Dói irmã. O racismo é escrachado!

Mina preta é resistência, luta, resiliência.
Na treta sua pele preta já lhe faz suspeita…
São maioria nas penitenciárias brasileiras.
Justiça? Depende de quanto você tem…

Cansamos heim!
Vamos enegrecer esse planeta.
Queremos ver pretas retintas em todas as classes, empregos e propagandas,
Representatividade, respeito, igualdade de direitos…
Nossa carne é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares…

Difícil ser mina preta!

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A mulher negra no Judiciário

Uma das pautas mais importante e menos discutida hoje é a visibilidade da mulher negra no Judiciário. Ano 2018, e ainda somos diariamente violentadas por olhares de desdem, os motivos? Nossa cor, nosso cabelo. Mulheres com medo (pasmem) de perderem clientes ou serem “destratadas” por magistrados, submetem-se a procedimentos químicos capilares para ficarem “esteticamente aceitáveis“.  Precisamos conversar sobre isso!

Mayara Silva de Souza, advogada, poeta e ativista social.

A população negra representa mais de 60% do país, mas ainda causamos polêmica quando assumimos nosso cabelo natural dentro de ambientes elitizados, cuja maioria ainda é machista e eurocêntrica. São inúmeros os relatos de discriminação racial dentro do Judiciário, e quando colocamos isso em pauta, tentam nos silenciar! É cruel.

O racismo é uma estrutura de poder e aqui no Brasil na maior parte das vezes é velado, minimizado, e por este motivo precisamos de diversos atos políticos para combater e desconstruir toda essa estrutura hipócrita, enraizada na sociedade brasileira. Enfrentamos a barreira do preconceito, ironicamente no local onde mais deveria existir “igualdade de direitos”. 

Numa entrevista para a Revista Planeta, a advogada Mayara Silva de Souza relatou:  “Quando digo que sou advogada, escuto uma interjeição de surpresa. Quantas amigas brancas são advogadas e ninguém se surpreende? Quero que nosso cabelo e nossa cor deixem de ser polêmica… As pessoas precisam entender que, quando estiver bom para a mulher negra, estará bom para todos“.

A luta, o enfrentamento é diário, mas ele se mostra invisível e inúmeras vezes desapercebido por autores e vítimas. Precisamos nos posicionar em todo o tempo, denunciar o racismo, o preconceito de gênero, ocupar e resistir!

Lembro da cerimônia de entrega da carteira da OAB,  na cidade de Campos dos Goytacazes, eu, a única negra. Ainda usava o cabelo alisado, e nesse dia “caprichei na prancha”, para não “destoar” do ambiente que eu iria. Mas não adiantou, era inevitável não reparar os olhares, a princípio curiosos, pois além de negra, eu era nova na cidade, ninguém me conhecia… Hoje, quando passo pelos corredores do fórum com meu cabelo black, vejo os olhares de nojo, curiosidade, reprovação e também de empatia (quando outra negra passa por mim).

2015, minha mãe orgulhosa, me acompanhando na cerimônia de entrega da carteira da OAB.

Necessário identificarmos e compreendermos as demandas do nosso local de fala, do nosso ambiente de trabalho. Queremos, precisamos de representatividade em todos os lugares! Então diga-me, qual é o seu local de fala, conte-me suas experiências. 

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Novembro – “Mês da consciência negra”

Então… Chegamos no fim do mês da “Consciência Negra”. E qual o saldo dessa data “reflexiva”? Afinal,  mesmo quando “esquecemos” a cor da nossa pele,  a sociedade nos lembra…

Criada em 2003, a data foi escolhida por coincidir com o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Segundo pesquisas, a ocasião é “dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira“.

Exatamente no dia 20 eu participei de uma mesa de conversa com profissionais negros, realizado no Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, a convite de Cida Chagas, criadora e coordenadora do Projeto Black e Cia. E o que pude perceber, aliás, confirmar… Foi que, por mais que a inserção do negro no mercado de trabalho esteja aumentando, ainda somos a “cota”. Ainda duvidam da nossa capacidade intelectual, questionam nosso cabelo natural em ambientes onde predomina-se o esteriótipo europeu, somos alvos de piadas e olhares tortos. Ainda.

Eu li em alguns lugares, pessoas defendendo a expressão “Consciência Humana”, pois “somos todos iguais”. Até concordo que somos todos iguais, perante à Deus somente. Porque nem mesmo na lei há equidade. Se um branco e um negro são flagrados com determinada quantidade de entorpecentes, a probabilidade do branco ser enquadrado como “usuário” e o negro como “traficante”, é de quase 100%.  Não é a toa que mais de 70% da população carcerária do Brasil é negra.

Segundo informações do do Atlas da Violência 2017, de 2005 a 2015, enquanto a taxa de homicídios por 100 mil habitantes teve queda de 12% entre os não negros, para os negros houve aumento de 18%. Para a ONU, o racismo (e aqui eu pontuo, racismo escrachado e principalmente velado) é uma das principais causas históricas desta situação de violência e letalidade a que a população negra ainda está submetida.

É cansativo debater com pessoas não negras que não sentem na pele a discriminação pela sua cor de pele e é mais cansativo ainda, entender negros que sempre estiveram numa posição privilegiada e sequer possuem a empatia de entender sua história, sua ancestralidade, de olhar entorno e observar o racismo chutando as portas de anônimos, famosos, adultos e crianças, porque nem elas são poupadas.

Não tenho nada inovador ou extraordinário para dizer nesse post. A luta, a resistência é diária, são 365 dias por ano. O racismo não nos dá folga. Conhecimento é o único legado que não podem nos tirar, precisamos nos posicionar.

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Relatos de um coração em transição capilar

Calor infernal! Ela esta ali, empenhada na frente do espelho, com seu secador e a escova jeitosamente encaixados entre os dedos. O ventilador até que alivia, mas quando chega a hora da prancha, ela desliga. Transpira, respira, reclama, deprimida. Acabou. A tortura chegou ao fim, agora ela está “esteticamente aceitável”. Lamentável.

Ela se olhou de verdade. Seu cabelo religiosamente esticado, o mais próximo que podia dos padrões da mídia. Parecia que estava aprisionada. Anos, nem os viu passar… Presa a um estereótipo estrangeiro. Chega! Um grito de liberdade. Foi a ultima vez que tentou deturpar seus fios.

E agora, como vai ser? Ousaram perguntar. E não era pra menos. Ela acaba de descobrir quem é. Sua essência, sua natureza, sua beleza. Mulher guerreira! Empoderada, assumida, liberta de toda opressão e paradigmas. Claro, isso ainda é um mantra que ela repete pra si mesma todos os dias, enquanto vê seus fios crescerem, seus olhos brilham no espelho. 

Preta, que orgulho! Tem se formado uma identidade, uma nova consciência do seu eu. Dia após dia, ela caminha na desconstrução da superficialidade. Tem uns cachos brotando, mas se olhar direitinho vai perceber que na frente a textura é crespa. Tudo bem, a gente entende que do meio pras pontas ainda tem resquícios de insegurança.

Foto: Desventuras de uma Cacheada

Avante menina! Faz carão e viva! Tenha amor ao seu cabelo, a sua cor, a sua história. Tem medo de que? O racismo te encurrala? Passe por cima dele de salto e de black power. Sim, você pode. Queremos representatividade!

Falando nisso… Mamães façam seus filhos resistentes ao preconceito! Deixa o crespo da cria subir, deixa os cachos saírem do lugar. Por que querem a todo tempo arrumar? Deixa brincar. Digam que são lindos assim, de black, nagô, solto, penteado… Ensine-os a não ficarem calados, se verem alguma “cara emburrada”. E o mais importante, sejam referência em casa. Assuma-se sem culpa e sem desculpas.

Não é fácil. Eu sei. Mas tem algo dentro de nós que muda, e cresce, e floresce. Uma liberdade, uma leveza que contagia. Sororidade. Aonde tivermos vamos te abraçar num olhar, num sorriso. Você não está sozinha. Dê o primeiro passo, desconstrua-se. O processo é longo, dolorido às vezes, mas é necessário. Sossegue essa ansiedade. É de dentro pra fora. A transição começa aqui, no coração.

 

 

 

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