Sobre uma mina preta

Uma infância de apelidos, pensava que era normal,
Seu cabelo, suas formas odiava por não ser “tradicional”,
Cresceu preterida, mais uma na estatística da solidão…
Sororidade irmã, tamo junto nessa desconstrução.

Uma mídia elitista, machista incita a cultura da mulata tipo exportação,
No carnaval somos musas, mas liga a TV e conta quantas pretas aparecem, tirando as empregadas e histórias da escravidão.

Racismo velado? Só se for pra você, mina de pele clara, traços finos, cabelo alisado, esteticamente aceitável… Salve, salve o colorismo nega!

Agora, deixa teu black crescer, põe seu turbante e dá um rolê pra tu ver…
Dói irmã. O racismo é escrachado!

Mina preta é resistência, luta, resiliência.
Na treta sua pele preta já lhe faz suspeita…
São maioria nas penitenciárias brasileiras.
Justiça? Depende de quanto você tem…

Cansamos heim!
Vamos enegrecer esse planeta.
Queremos ver pretas retintas em todas as classes, empregos e propagandas,
Representatividade, respeito, igualdade de direitos…
Nossa carne é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares…

Difícil ser mina preta!

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Relatos de um coração em transição capilar

Calor infernal! Ela esta ali, empenhada na frente do espelho, com seu secador e a escova jeitosamente encaixados entre os dedos. O ventilador até que alivia, mas quando chega a hora da prancha, ela desliga. Transpira, respira, reclama, deprimida. Acabou. A tortura chegou ao fim, agora ela está “esteticamente aceitável”. Lamentável.

Ela se olhou de verdade. Seu cabelo religiosamente esticado, o mais próximo que podia dos padrões da mídia. Parecia que estava aprisionada. Anos, nem os viu passar… Presa a um estereótipo estrangeiro. Chega! Um grito de liberdade. Foi a ultima vez que tentou deturpar seus fios.

E agora, como vai ser? Ousaram perguntar. E não era pra menos. Ela acaba de descobrir quem é. Sua essência, sua natureza, sua beleza. Mulher guerreira! Empoderada, assumida, liberta de toda opressão e paradigmas. Claro, isso ainda é um mantra que ela repete pra si mesma todos os dias, enquanto vê seus fios crescerem, seus olhos brilham no espelho. 

Preta, que orgulho! Tem se formado uma identidade, uma nova consciência do seu eu. Dia após dia, ela caminha na desconstrução da superficialidade. Tem uns cachos brotando, mas se olhar direitinho vai perceber que na frente a textura é crespa. Tudo bem, a gente entende que do meio pras pontas ainda tem resquícios de insegurança.

Foto: Desventuras de uma Cacheada

Avante menina! Faz carão e viva! Tenha amor ao seu cabelo, a sua cor, a sua história. Tem medo de que? O racismo te encurrala? Passe por cima dele de salto e de black power. Sim, você pode. Queremos representatividade!

Falando nisso… Mamães façam seus filhos resistentes ao preconceito! Deixa o crespo da cria subir, deixa os cachos saírem do lugar. Por que querem a todo tempo arrumar? Deixa brincar. Digam que são lindos assim, de black, nagô, solto, penteado… Ensine-os a não ficarem calados, se verem alguma “cara emburrada”. E o mais importante, sejam referência em casa. Assuma-se sem culpa e sem desculpas.

Não é fácil. Eu sei. Mas tem algo dentro de nós que muda, e cresce, e floresce. Uma liberdade, uma leveza que contagia. Sororidade. Aonde tivermos vamos te abraçar num olhar, num sorriso. Você não está sozinha. Dê o primeiro passo, desconstrua-se. O processo é longo, dolorido às vezes, mas é necessário. Sossegue essa ansiedade. É de dentro pra fora. A transição começa aqui, no coração.

 

 

 

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Representatividade negra no Judiciário

No mês passado em Brasília, aconteceu o I Encontro Nacional de Juízas e Juízes Negros. O encontro reuniu de forma inédita magistrados, advogados, promotores, defensores públicos e militantes do movimento negro para denunciar a urgência de políticas públicas que promovam a representatividade de uma parcela da população até hoje escassamente representada no Judiciário e no Estado Brasileiro.

Já estamos na quinta geração pós-abolição e os números da participação negra no Judiciário e no Estado brasileiro são vergonhosos e inaceitáveis. Não podemos normalizar essa situação de só encontrar brancos em determinados postos quando a população do país é 53% negra. É uma situação anômala e não é só um problema negro, mas da sociedade brasileira”, disse a magistrada, que atua na seção da Justiça Federal do Rio de Janeiro.

Vale lembrar que, segundo último levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), a população carcerária do Brasil chegou ao número de 622.202 presos, dos quais 61,6% são negros. E quando sem fala da mulher nesse cenário, as estatísticas chocam:

A maioria das mulheres presas no país (68%) é negra, enquanto 31% são brancas e 1%, amarela. No Acre, 100% das detentas eram negras em junho de 2014. O segundo estado com o maior percentual é o Ceará, com 94%, seguido da Bahia, com 92% de presas negras.

De acordo com o juiz do TJDFT e organizador do evento Fábio Esteves, a representatividade negra é necessária não apenas para refletir a diversidade etnicorracial do país, mas também porque influencia as decisões do Poder Judiciário, especialmente considerando-se o número de réus da justiça criminal que são negros. “O Poder Judiciário precisa ser tão plural quanto a sociedade brasileira para ser constitucional, pois de acordo com o artigo 3º da Constituição, é objetivo da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária”, disse.

Infelizmente o que tenho são apenas notícias de diversas fontes jornalísticas sobre o evento, não estive presente e só posso dar meu parecer diante do que li, por esse motivo são bem rasos meus pensamentos no sentido de que, “o que mudará de fato com o aumento de representantes negros no judiciário brasileiro?”.

É sabido, tanto por operadores do Direito quanto por leigos que, a discriminação racial dentro do judiciário brasileiro, principalmente na esfera criminal é latente, iminente e perversa, e de fato é mais do que urgente pessoas que realmente compreendam na pele (literalmente) o que é ser negro e réu no nosso país.

Espero que as ideias desse debate não fiquem apenas em papéis timbrados escritos em “juridiquês”. O encontro já foi um avanço, vamos ser otimistas!

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Mamãe, não alisa meu cabelo!

Mamãe, não alisa meu cabelo,
Cuida dele, me faz resistente ao preconceito!
Essa é minha identidade,
Empodere-me desde criança.

Deixa meu crespo subir,
Deixa meus cachos saírem do lugar…
Por que quer a todo tempo arrumar?
Deixa eu brincar!

Diga que sou linda assim, de black, nagô, solto, penteada…
Ensine-me a não ficar calada,
Se disserem que “tenho alguma coisa errada”.

Mamãe, pensando bem…
Queria te ver natural também!
Sinto falta de um exemplo em casa.

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