A mulher negra no Judiciário

Uma das pautas mais importante e menos discutida hoje é a visibilidade da mulher negra no Judiciário. Ano 2018, e ainda somos diariamente violentadas por olhares de desdem, os motivos? Nossa cor, nosso cabelo. Mulheres com medo (pasmem) de perderem clientes ou serem “destratadas” por magistrados, submetem-se a procedimentos químicos capilares para ficarem “esteticamente aceitáveis“.  Precisamos conversar sobre isso!

Mayara Silva de Souza, advogada, poeta e ativista social.

A população negra representa mais de 60% do país, mas ainda causamos polêmica quando assumimos nosso cabelo natural dentro de ambientes elitizados, cuja maioria ainda é machista e eurocêntrica. São inúmeros os relatos de discriminação racial dentro do Judiciário, e quando colocamos isso em pauta, tentam nos silenciar! É cruel.

O racismo é uma estrutura de poder e aqui no Brasil na maior parte das vezes é velado, minimizado, e por este motivo precisamos de diversos atos políticos para combater e desconstruir toda essa estrutura hipócrita, enraizada na sociedade brasileira. Enfrentamos a barreira do preconceito, ironicamente no local onde mais deveria existir “igualdade de direitos”. 

Numa entrevista para a Revista Planeta, a advogada Mayara Silva de Souza relatou:  “Quando digo que sou advogada, escuto uma interjeição de surpresa. Quantas amigas brancas são advogadas e ninguém se surpreende? Quero que nosso cabelo e nossa cor deixem de ser polêmica… As pessoas precisam entender que, quando estiver bom para a mulher negra, estará bom para todos“.

A luta, o enfrentamento é diário, mas ele se mostra invisível e inúmeras vezes desapercebido por autores e vítimas. Precisamos nos posicionar em todo o tempo, denunciar o racismo, o preconceito de gênero, ocupar e resistir!

Lembro da cerimônia de entrega da carteira da OAB,  na cidade de Campos dos Goytacazes, eu, a única negra. Ainda usava o cabelo alisado, e nesse dia “caprichei na prancha”, para não “destoar” do ambiente que eu iria. Mas não adiantou, era inevitável não reparar os olhares, a princípio curiosos, pois além de negra, eu era nova na cidade, ninguém me conhecia… Hoje, quando passo pelos corredores do fórum com meu cabelo black, vejo os olhares de nojo, curiosidade, reprovação e também de empatia (quando outra negra passa por mim).

2015, minha mãe orgulhosa, me acompanhando na cerimônia de entrega da carteira da OAB.

Necessário identificarmos e compreendermos as demandas do nosso local de fala, do nosso ambiente de trabalho. Queremos, precisamos de representatividade em todos os lugares! Então diga-me, qual é o seu local de fala, conte-me suas experiências. 

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Sororidade seletiva ou mito?

Uma senhora quis marcar consulta na clínica onde eu trabalho essa semana… Para o procedimento que ela queria, tinha dentista homem e mulher, e ela fez o seguinte “pedido”: – “Melhor marcar para o *****, acho que dentista homem tem mais competência para fazer isso sabe“. Meu! Eu estava distraída, seria mais uma conversa de balcão, mas eu olhei indignada para aquela moça, que nem sequer conhecia qualquer um daqueles profissionais! 

Se você caiu de paraquedas aqui no blog e como essa senhora (acredito eu), nunca ouviu o termo sororidade, eu explico, aliás, o Google: “Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum“. 

Do ponto de vista do feminismo, a sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal. 

Bem, não sei quem criou esse termo, mas desde a primeira vez que eu o ouvi, achei bem utópico. Mulheres preterem outras todos os dias! Se você fizer uma pesquisa, menos de 10% das mulheres vão dizer que preferem ser chefiadas por outras, mas isso é cultural, fomos ensinadas a sermos rivais, competir em todas as áreas, realmente não é fácil, o processo de desconstrução é lento.

Mexeu com uma, mexeu com todas“, esse slogan tem vinculado diversas mídias, traduzindo o significado do termo sororidade, mas na prática não é bem assim que funciona. Já ouvi diversas mulheres especulando que “decote” e “saia curta” são convites para o estupro, ou seja, para elas, a culpa é da vítima. O pior foi aonde eu ouvi tamanho absurdo, na sala da OAB. Quase vomitei. 

A tal união que o termo propõe, na minha percepção, apenas acontece em grupos que tem objetivo em comum, e não para o bem geral feminino. Sororidade entre a mina da zona sul e a da favela; entre a patroa e a empregada é mito! A parceira é seletiva e isso dói.

Percebo em alguns debates na rede social, inúmeras mulheres querendo silenciar outras, minimizar preconceitos que algumas sofrem, baseados nos privilégios que possuem. Sororidade entre mulheres brancas e negras, só funcionam até a página dois, essa é a realidade. Quando começamos falar das nossas dificuldades e portas fechadas ao assumir nosso cabelo natural, por exemplo, já surgem memes de “mimimi”, é frustrante! 

Eu não sou expert no assunto, nem tenho a pretensão de esgotá-lo, mas esse termo foi banalizado demais, precisamos conversar mais sobre isso. Discutir, desconstruir essa hipocrisia que paira no feminismo hoje. Não faça como aquela senhora! Não faça. 

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Outubro Rosa

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu.

O que foi? Notou algo diferente?
Um nó, um nódulo, palpitação?
Procure um médico, eu vou com você.
Estou com você.

O processo é doloroso, eu sei.
Contudo é necessário, uma fase com início, meio e fim.
Levante essa cabeça, tome fôlego, mantenha a mente sã.
Vou te dar um lenço bem bonito,
E te trazer à memória, lembranças que te façam sorrir.

Percebi que sentiu medo durante a cirurgia…
Mas acabou! Não há sequer vestígios.
Sou grata à Deus por sua vida, por estar viva, por ter renascido.
E de agora em diante, quando eu te chamar
MULHER
Nossos olhos vão brilhar!
Você o venceu.

Vamos recomeçar?

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu. Ame-se ❤

 

#outubrorosa  Mês de prevenção e conscientização do diagnóstico precoce do câncer de mama.

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Sobre uma mina preta

Uma infância de apelidos, pensava que era normal,
Seu cabelo, suas formas odiava por não ser “tradicional”,
Cresceu preterida, mais uma na estatística da solidão…
Sororidade irmã, tamo junto nessa desconstrução.

Uma mídia elitista, machista incita a cultura da mulata tipo exportação,
No carnaval somos musas, mas liga a TV e conta quantas pretas aparecem, tirando as empregadas e histórias da escravidão.

Racismo velado? Só se for pra você, mina de pele clara, traços finos, cabelo alisado, esteticamente aceitável… Salve, salve o colorismo nega!

Agora, deixa teu black crescer, põe seu turbante e dá um rolê pra tu ver…
Dói irmã. O racismo é escrachado!

Mina preta é resistência, luta, resiliência.
Na treta sua pele preta já lhe faz suspeita…
São maioria nas penitenciárias brasileiras.
Justiça? Depende de quanto você tem…

Cansamos heim!
Vamos enegrecer esse planeta.
Queremos ver pretas retintas em todas as classes, empregos e propagandas,
Representatividade, respeito, igualdade de direitos…
Nossa carne é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares…

Difícil ser mina preta!

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A hipersexualização da mulher negra

Faz tempo que estou para falar sobre o assunto. A hipersexualização da mulher negra não é algo evidente apenas no “carnaval carioca”, mas em todo tempo, em todos os meios! Contudo, pior do que o rótulo de “mulata tipo exportação” é ver crianças, adolescentes (e aqui digo negras e não negras), principalmente de áreas periféricas, se hipersexualizando por acharem que assim, vão ser queridas, desejadas ou no deturpado pensamento de alguns… “empoderadas”.

Conta-nos Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala que, havia um ditado corrente no Brasil patriarcal a respeito das mulheres: “branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar”.  

Ps. pensei em “amenizar” a frase, mas decidi deixar na íntegra pois não “amenizam” nossa dor, não é mesmo? Agora diga-me, mulher de 2017, sinceramente, esse ditado do Brasil patriarcal, mudou algo hoje em dia? (Deixa sua resposta nos comentários, por favor).

Eu poderia relatar vários casos aqui… Exemplo a “Globeleza“, que no último carnaval apareceu coberta, para surpresa de todos. A mulata tipo exportação para gringo ver, veio repaginada este ano. Houve comemoração por parte de mulheres que se sentiam aviltadas com o que consideravam “objetificação do corpo feminino”, houve quem considerasse a decisão da emissora um reflexo de uma onda conservadora no país, ou seja, uma linha muito tênue que separa a hipersexualização da liberdade de expressão.

Nas zonas nobres da cidade do Rio, mulher negra “do corpão” andando na orla da praia, é constantemente abordada por gringos como prostituta. Por que será? Uma cultura infeliz enraizada em nosso país, e ainda  há quem diga que esse assunto é “mimimi”.

Propaganda alvo de ação judicial teve por unanimidade a seguinte decisão: “Com base no raciocínio que construí, entendo que a propagada apresentada não se inclui como ofensiva ou discriminatória”. Pasmem!

A sensação é de impotência, surreal manas! Vemos nossos corpos negros expostos como objeto de desejo, e a “justiça” diz que “está certinho”, “sem problema algum”. Como está escrito na primeira imagem:  “Não deixem que te façam pensar que o nosso papel na pátria é atrair gringo interpretando mulata“. Preta, se você tem “corpão”, “bundão”, que bom! Mas você é bem mais que isso viu?!

Num outro cenário não tão distante, observo crianças e adolescentes, tendo sua infância erotizada, a maioria negras e de regiões periféricas, sendo bombardeadas diariamente por conteúdos que as fazem se hipersexualizarem, muitas vezes apoiadas ou incentivadas pelos próprios pais.

As meninas, por outro lado, são incitadas a se hipersexualizarem para chegarem a uma feminilidade hegemônica”  diz Maria Luiza Heilborn, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ou seja, o recado da mídia é: quando mais “gostosa” a mulher for, mas poder ela terá.

É deprimente! As consequências são bem mais profundas do que se espera, não trata-se apenas de crianças vestidas como adulto ou um adolescente com roupas excessivamente sensuais, é todo um despertar psíquico e comportamental de forma PRECOCE para uma vida sexual, por exemplo. 

Não é a violência que cria a cultura, mas é a cultura que define o que é violência. Ela é que vai aceitar violências em maior ou menor grau a depender do ponto em que nós estejamos enquanto sociedade humana, do ponto de compreensão do que seja a prática violenta ou não”, diz Luiza Bairros, doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan e ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir).

Pais, tenham cuidado com seus filhos, eles tem vocês como o primeiro exemplo.

Não tive a pretensão de esgotar o assunto, mas o trazer à tona para que possamos juntos refletir… Vamos ter consciência de que nosso corpo não é bagunça e que nossas crianças tem direito de serem crianças! Não incentive nem permita que essa infância seja deturpada, que a “inocência” seja precocemente extinta, por favor.

 

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