Tempo Indigesto

Debruçados na espera,
A noite retarda seus ponteiros.
E a cada tic-tac abafado,
Torna-se um transtorno no travesseiro.

Quem tem foco, não anseia,
Pois já tem a certeza do que o espera.
caminhos traçados por Deus…
E não há quem revele, os mistérios Seus.

Lembranças, nem sempre coloridas.
Cicatrizes do tempo,
Contam a história de um guerreiro.

Que não desiste, não contesta e nem murmura.
Apenas crê no amanhã, perfeitamente desenhado pra ele,
Desde a fundação do mundo.

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Sobre uma mina preta

Uma infância de apelidos, pensava que era normal,
Seu cabelo, suas formas odiava por não ser “tradicional”,
Cresceu preterida, mais uma na estatística da solidão…
Sororidade irmã, tamo junto nessa desconstrução.

Uma mídia elitista, machista incita a cultura da mulata tipo exportação,
No carnaval somos musas, mas liga a TV e conta quantas pretas aparecem, tirando as empregadas e histórias da escravidão.

Racismo velado? Só se for pra você, mina de pele clara, traços finos, cabelo alisado, esteticamente aceitável… Salve, salve o colorismo nega!

Agora, deixa teu black crescer, põe seu turbante e dá um rolê pra tu ver…
Dói irmã. O racismo é escrachado!

Mina preta é resistência, luta, resiliência.
Na treta sua pele preta já lhe faz suspeita…
São maioria nas penitenciárias brasileiras.
Justiça? Depende de quanto você tem…

Cansamos heim!
Vamos enegrecer esse planeta.
Queremos ver pretas retintas em todas as classes, empregos e propagandas,
Representatividade, respeito, igualdade de direitos…
Nossa carne é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares…

Difícil ser mina preta!

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Pai, ensina-nos!

No segundo domingo do mês de Agosto, comemora-se o “Dia dos pais“. Até pensei em fazer textão sobre o assunto, a quantidade de “abortos paternos”, abandonos afetivos e tudo mais… Sei que é dia de comemoração para uns, e lágrimas para outros, contudo há um Pai no céu que jamais nos deixará. 

“Ainda que me abandonem pai e mãe, o Senhor me acolherá”. Salmos 27:10

Pai,

Ensina-nos a conhecer mais de Ti,
A ansiar prostrar-nos com amor,
Com tudo que temos Te glorificar,
E mesmo em prantos Te adorar.

Revela-nos a Tua Palavra,
Espírito Santo, despe nosso ser,
De toda vaidade,
De todo achismo,
Para que transborde toda a Paz de Cristo.

Constranja-nos dia após dia,
E quebranta-nos a cada louvor.
Seja nosso Senhor com todo o Seu poder e majestade.
Inspira-nos a crer com ousadia.

Ensina teu povo a copiar o Seu caráter e a Sua Excelência;
A caminhar com prazer em santidade e obediência,
Ministra Tua vontade em nós.
Educa nossos pensamentos,
Purifica nossos sentimentos,
Esquadrinha nosso coração.

Sei que no mais culto texto não conseguiremos descrever quem Tu és,
A beleza da Tua Glória nos faz tão desprezíveis…

O homem constrói o imensurável, mas é incapaz de desenhar a boa, perfeita e agradável vontade de Cristo.

Quem dera Senhor, um dia em Teus átrios,
Ouvir tua voz de trovão regendo os mares.
Ver teus anjos adorar-te, Santo, Santo! Exaltarem!
Compreender O amor,
Que restaura um ser arrebentado.

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Contudo, off-line é bem melhor…

Reúne os amigos, faz pipoca de panela, junta, tira foto!
Viaje com eles, de boa, desliga o celular.
Extasie-se com a brisa do mar, põe um som pra tocar…
Aqueça-se na fogueira cantando canções que vier à mente.

Delícia é olhar no olho, tocar a pele,
Bom mesmo é um abraço apertado, diferente de um emotion na tela.
Nostalgia uma sessão de cinema, dominó, dama, paciência!
Saudade das gargalhadas desesperadas da adolescência.

A vida modernizou… Claro!
Veio o twitter e tornou tudo tão vago
Tornou-se vício, postar realidades falsas no Insta.

Tem disputa de ego na web, deu curto na rede!
Estar on-line virou quase obrigação.
Contudo, off-line é bem melhor.

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Relatos de um coração em transição capilar

Calor infernal! Ela esta ali, empenhada na frente do espelho, com seu secador e a escova jeitosamente encaixados entre os dedos. O ventilador até que alivia, mas quando chega a hora da prancha, ela desliga. Transpira, respira, reclama, deprimida. Acabou. A tortura chegou ao fim, agora ela está “esteticamente aceitável”. Lamentável.

Ela se olhou de verdade. Seu cabelo religiosamente esticado, o mais próximo que podia dos padrões da mídia. Parecia que estava aprisionada. Anos, nem os viu passar… Presa a um estereótipo estrangeiro. Chega! Um grito de liberdade. Foi a ultima vez que tentou deturpar seus fios.

E agora, como vai ser? Ousaram perguntar. E não era pra menos. Ela acaba de descobrir quem é. Sua essência, sua natureza, sua beleza. Mulher guerreira! Empoderada, assumida, liberta de toda opressão e paradigmas. Claro, isso ainda é um mantra que ela repete pra si mesma todos os dias, enquanto vê seus fios crescerem, seus olhos brilham no espelho. 

Preta, que orgulho! Tem se formado uma identidade, uma nova consciência do seu eu. Dia após dia, ela caminha na desconstrução da superficialidade. Tem uns cachos brotando, mas se olhar direitinho vai perceber que na frente a textura é crespa. Tudo bem, a gente entende que do meio pras pontas ainda tem resquícios de insegurança.

Foto: Desventuras de uma Cacheada

Avante menina! Faz carão e viva! Tenha amor ao seu cabelo, a sua cor, a sua história. Tem medo de que? O racismo te encurrala? Passe por cima dele de salto e de black power. Sim, você pode. Queremos representatividade!

Falando nisso… Mamães façam seus filhos resistentes ao preconceito! Deixa o crespo da cria subir, deixa os cachos saírem do lugar. Por que querem a todo tempo arrumar? Deixa brincar. Digam que são lindos assim, de black, nagô, solto, penteado… Ensine-os a não ficarem calados, se verem alguma “cara emburrada”. E o mais importante, sejam referência em casa. Assuma-se sem culpa e sem desculpas.

Não é fácil. Eu sei. Mas tem algo dentro de nós que muda, e cresce, e floresce. Uma liberdade, uma leveza que contagia. Sororidade. Aonde tivermos vamos te abraçar num olhar, num sorriso. Você não está sozinha. Dê o primeiro passo, desconstrua-se. O processo é longo, dolorido às vezes, mas é necessário. Sossegue essa ansiedade. É de dentro pra fora. A transição começa aqui, no coração.

 

 

 

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