Novembro – “Mês da consciência negra”

Então… Chegamos no fim do mês da “Consciência Negra”. E qual o saldo dessa data “reflexiva”? Afinal,  mesmo quando “esquecemos” a cor da nossa pele,  a sociedade nos lembra…

Criada em 2003, a data foi escolhida por coincidir com o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Segundo pesquisas, a ocasião é “dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira“.

Exatamente no dia 20 eu participei de uma mesa de conversa com profissionais negros, realizado no Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, a convite de Cida Chagas, criadora e coordenadora do Projeto Black e Cia. E o que pude perceber, aliás, confirmar… Foi que, por mais que a inserção do negro no mercado de trabalho esteja aumentando, ainda somos a “cota”. Ainda duvidam da nossa capacidade intelectual, questionam nosso cabelo natural em ambientes onde predomina-se o esteriótipo europeu, somos alvos de piadas e olhares tortos. Ainda.

Eu li em alguns lugares, pessoas defendendo a expressão “Consciência Humana”, pois “somos todos iguais”. Até concordo que somos todos iguais, perante à Deus somente. Porque nem mesmo na lei há equidade. Se um branco e um negro são flagrados com determinada quantidade de entorpecentes, a probabilidade do branco ser enquadrado como “usuário” e o negro como “traficante”, é de quase 100%.  Não é a toa que mais de 70% da população carcerária do Brasil é negra.

Segundo informações do do Atlas da Violência 2017, de 2005 a 2015, enquanto a taxa de homicídios por 100 mil habitantes teve queda de 12% entre os não negros, para os negros houve aumento de 18%. Para a ONU, o racismo (e aqui eu pontuo, racismo escrachado e principalmente velado) é uma das principais causas históricas desta situação de violência e letalidade a que a população negra ainda está submetida.

É cansativo debater com pessoas não negras que não sentem na pele a discriminação pela sua cor de pele e é mais cansativo ainda, entender negros que sempre estiveram numa posição privilegiada e sequer possuem a empatia de entender sua história, sua ancestralidade, de olhar entorno e observar o racismo chutando as portas de anônimos, famosos, adultos e crianças, porque nem elas são poupadas.

Não tenho nada inovador ou extraordinário para dizer nesse post. A luta, a resistência é diária, são 365 dias por ano. O racismo não nos dá folga. Conhecimento é o único legado que não podem nos tirar, precisamos nos posicionar.

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Outubro Rosa

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu.

O que foi? Notou algo diferente?
Um nó, um nódulo, palpitação?
Procure um médico, eu vou com você.
Estou com você.

O processo é doloroso, eu sei.
Contudo é necessário, uma fase com início, meio e fim.
Levante essa cabeça, tome fôlego, mantenha a mente sã.
Vou te dar um lenço bem bonito,
E te trazer à memória, lembranças que te façam sorrir.

Percebi que sentiu medo durante a cirurgia…
Mas acabou! Não há sequer vestígios.
Sou grata à Deus por sua vida, por estar viva, por ter renascido.
E de agora em diante, quando eu te chamar
MULHER
Nossos olhos vão brilhar!
Você o venceu.

Vamos recomeçar?

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu. Ame-se ❤

 

#outubrorosa  Mês de prevenção e conscientização do diagnóstico precoce do câncer de mama.

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Na minha pele – Lázaro Ramos: minhas impressões

Ganhei de presente do meu tio, pena que não chegou a tempo de levar na Bienal para o Lázaro autografar.

Na Minha Pele não é uma autobiografia, como ele mesmo diz. Mas trata-se se um coletivo de vivências, de forma muito franca e consciente.

Demorei um pouco para terminar, estou enferrujada. Antigamente eu devorara livros e livros num só dia, mas depois que ler passou a ser obrigação, eu desanimei. Enfim, fazia muito tempo mesmo que eu não lia um livro inteiro que não fosse jurídico, mas a “viagem”, como o Lázaro chama, me tirou do eixo, foi emocionante, surpreendente e o melhor, me fez perceber o quase nada que sei sobre mim mesma.

Nunca fiz resenha de um livro, mas vou dar minha sincera opinião.

Logo no início um trecho encheu meu coração de esperança: “Sou uma exceção, e história de exceção só confirma a regra. Fazer mais um livro sobre o ponto de vista de uma exceção não ajuda em nada a questão da exclusão dos negros no Brasil. Meu Deus, como fazer um relato quase autobiográfico sem tornar o texto uma apologia a mim mesmo e a meus pares um pouco mais bem-sucedidos?”

Li umas 4 vezes e fiquei uns minutos pensando… Cara! Não esperava menos do Lázaro (como se eu o conhecesse hahaha), mas a pessoa o qual ele se mostra na tela da minha TV, estava ali “comigo” naquele livro, mostrando suas entranhas (acredito que a escrita revela muito mais do ser humano do que a fala) e ratificando toda sua humildade e consciência na medida certa de quem ele é, e do que representa na sociedade. Lázaro, gratidão! Torceria o nariz se você viesse com aquele discurso “se eu consegui, você também consegue”. Mesmo que lá no fundo a gente saiba que até poderíamos, o que ele disse, faz a gente chegar bem mais perto do “céu”.

Ele começa contando sobre sua infância na Ilha do Paty – Salvador/BA, sua formação familiar, suas raízes e a construção da sua autoestima. Até então, ele não havia “sentido na pele” o que era ser negro em nosso país. Como muitos de nós, até sairmos da nossa “zona de conforto”. Contudo, a rejeição na fase escolar, logo o inseriu nesse processo…

Relata com sensibilidade, questionamentos e força de vontade, sua trajetória como ator ( e aqui ele nos faz raciocinar: “ator negro” ou simplesmente “ator”?).

Já depois da metade do livro, a gente ratifica em nosso coração que “Nosso lugar é aonde nós sonharmos estar” e concordamos que “Mesmo quando tentamos esquecer que somos negros, alguém nos lembra”.

Lázaro me surpreendeu, quando contou sobre a recusa de trabalhos que tivesse que usar arma de fogo. “Fugiu” de papéis onde ele seria o negro escravizado ou marginal, por exemplo. Aí eu fiquei pensando, que “recado” eu tenho passado ou deixado de passar (o que é pior) na minha profissão (e pense na sua também, leitor), conclusão: senti vergonha de mim.

Chegando ao fim, Lázaro mostra que está bem antenado em temas como: empoderamento, sororidade, representatividade e solidão da mulher negra, diariamente “gritados e sussurrados” na blogosfera e no Youtube, pelos influenciadores digitais, que foram gentilmente citados por ele (precisamos de voz).

Até então, eu estava o achando bastante polido com os não negros, mas os momentos finais da “viagem” foram de revirar o estômago… “Não é natural as pessoas de tez mais escura serem maioria nos presídios, favelas e manicômios“. “Um negro se dá conta da sua etnia a cada olhar que recebe (de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de pena) ao entrar em um lugar“. Lázaro cita dados sobre o genocídio da população negra – “dos 30 mil jovens mortos no Brasil, 77% são negros. Caro leitor, você acha isso “mera coincidência”? “Mulheres negras recebem menos anestesia, pois seria mais resistentes à dor“. Nesse momento, se os leitores não negros não compreenderam a dimensão “da coisa toda”, aqui o Autor faz questão de deixar bem claro!

“Meus amados amigos brancos, vocês tem, sim, que pensar muito sobre isso ao educar seus filhos. Afinal, eles têm que ter o compromisso de tornar toda essa merda um lugar um pouco melhor. Têm que saber que tem gente que recebe tapa na cara de polícia com dez, doze anos de idade, só por uma suspeita”.

Não me lembro de ter sorrido muito nesse livro, afinal, falar de dor não tem graça. Conforta-me saber que hoje tem alguém dando voz à comunidade negra, que não é só eu que fico sem respostas (indignada) quando algum negro vem sem qualquer empatia falar sobre sua “história de exceção”, fico feliz demais em saber que tem um negro reconhecido internacionalmente (graças a Deus), lutando por nós (Sim! Este livro desmorona muros, outrora inalcançáveis), meros mortais. 

Parece óbvio, mas não é. Neste livro descobri que você “é de verdade”. Gratidão Lázaro!

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Porque não escrevo para crianças

Perguntaram se eu não escrevo para crianças. Depressa disse que não. Mas logo me peguei pensando, por que não? Foi tão espontâneo essa negativa, estranho. Na verdade, bem lá no fundo eu sei. Tenho medo. Imagina uma criança lendo meu eu. Sim, porque crianças lêem nossa alma. Elas nos desconcertam, nos inquietam,  desconstrói a gente num sorriso, num simples gesto. Elas descobrem nossos medos mais secretos, desmoronam nossas defesas com descaradas perguntas. O que eu poderia escrever para elas? Ah se soubessem… A grande verdade é que os adultos são muito mais inseguros que vocês, a diferença é o orgulho e a maquiagem. Disfarça quase tudo. Reparem que evitamos olhar nos olhos. Velha tática, para vocês não enxergarem nossa alma.

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É possível florescer na lama?

Outro dia passei pela rua e por certo tempo fiquei observando as árvores na beira da calçada. Uma em especial me chamou atenção. Era tão verde, tão viva, parecia de plástico de tão perfeita. Olhei ao seu redor e só tinha sujeira e lama. Como pode? Questionei. Lembrei da flor de lótus. A lógica da vida é que “somos produto do meio”, não é mesmo? Uma análise complexa em menos de um minuto de observação. Só pude concluir uma questão: somos aquilo que nos permitirmos ser. E quem dera de fato se nos permitíssemos… Ser aquilo que foi desenhado para nós desde antes da nossa concepção. Cumpriríamos nosso propósito, nossa missão. Independentemente de companhia e circunstâncias, sim é possível florescer na lama.

Ps. Na dúvida, observe a natureza.

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