Outubro Rosa

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu.

O que foi? Notou algo diferente?
Um nó, um nódulo, palpitação?
Procure um médico, eu vou com você.
Estou com você.

O processo é doloroso, eu sei.
Contudo é necessário, uma fase com início, meio e fim.
Levante essa cabeça, tome fôlego, mantenha a mente sã.
Vou te dar um lenço bem bonito,
E te trazer à memória, lembranças que te façam sorrir.

Percebi que sentiu medo durante a cirurgia…
Mas acabou! Não há sequer vestígios.
Sou grata à Deus por sua vida, por estar viva, por ter renascido.
E de agora em diante, quando eu te chamar
MULHER
Nossos olhos vão brilhar!
Você o venceu.

Vamos recomeçar?

Ei, mulher? Como você se chama?
Já olhou no espelho, tocou seus seios hoje?
Não sinta vergonha, se sinta.
O dever é só seu. Ame-se ❤

 

#outubrorosa  Mês de prevenção e conscientização do diagnóstico precoce do câncer de mama.

Continue Reading

Na minha pele – Lázaro Ramos: minhas impressões

Ganhei de presente do meu tio, pena que não chegou a tempo de levar na Bienal para o Lázaro autografar.

Na Minha Pele não é uma autobiografia, como ele mesmo diz. Mas trata-se se um coletivo de vivências, de forma muito franca e consciente.

Demorei um pouco para terminar, estou enferrujada. Antigamente eu devorara livros e livros num só dia, mas depois que ler passou a ser obrigação, eu desanimei. Enfim, fazia muito tempo mesmo que eu não lia um livro inteiro que não fosse jurídico, mas a “viagem”, como o Lázaro chama, me tirou do eixo, foi emocionante, surpreendente e o melhor, me fez perceber o quase nada que sei sobre mim mesma.

Nunca fiz resenha de um livro, mas vou dar minha sincera opinião.

Logo no início um trecho encheu meu coração de esperança: “Sou uma exceção, e história de exceção só confirma a regra. Fazer mais um livro sobre o ponto de vista de uma exceção não ajuda em nada a questão da exclusão dos negros no Brasil. Meu Deus, como fazer um relato quase autobiográfico sem tornar o texto uma apologia a mim mesmo e a meus pares um pouco mais bem-sucedidos?”

Li umas 4 vezes e fiquei uns minutos pensando… Cara! Não esperava menos do Lázaro (como se eu o conhecesse hahaha), mas a pessoa o qual ele se mostra na tela da minha TV, estava ali “comigo” naquele livro, mostrando suas entranhas (acredito que a escrita revela muito mais do ser humano do que a fala) e ratificando toda sua humildade e consciência na medida certa de quem ele é, e do que representa na sociedade. Lázaro, gratidão! Torceria o nariz se você viesse com aquele discurso “se eu consegui, você também consegue”. Mesmo que lá no fundo a gente saiba que até poderíamos, o que ele disse, faz a gente chegar bem mais perto do “céu”.

Ele começa contando sobre sua infância na Ilha do Paty – Salvador/BA, sua formação familiar, suas raízes e a construção da sua autoestima. Até então, ele não havia “sentido na pele” o que era ser negro em nosso país. Como muitos de nós, até sairmos da nossa “zona de conforto”. Contudo, a rejeição na fase escolar, logo o inseriu nesse processo…

Relata com sensibilidade, questionamentos e força de vontade, sua trajetória como ator ( e aqui ele nos faz raciocinar: “ator negro” ou simplesmente “ator”?).

Já depois da metade do livro, a gente ratifica em nosso coração que “Nosso lugar é aonde nós sonharmos estar” e concordamos que “Mesmo quando tentamos esquecer que somos negros, alguém nos lembra”.

Lázaro me surpreendeu, quando contou sobre a recusa de trabalhos que tivesse que usar arma de fogo. “Fugiu” de papéis onde ele seria o negro escravizado ou marginal, por exemplo. Aí eu fiquei pensando, que “recado” eu tenho passado ou deixado de passar (o que é pior) na minha profissão (e pense na sua também, leitor), conclusão: senti vergonha de mim.

Chegando ao fim, Lázaro mostra que está bem antenado em temas como: empoderamento, sororidade, representatividade e solidão da mulher negra, diariamente “gritados e sussurrados” na blogosfera e no Youtube, pelos influenciadores digitais, que foram gentilmente citados por ele (precisamos de voz).

Até então, eu estava o achando bastante polido com os não negros, mas os momentos finais da “viagem” foram de revirar o estômago… “Não é natural as pessoas de tez mais escura serem maioria nos presídios, favelas e manicômios“. “Um negro se dá conta da sua etnia a cada olhar que recebe (de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de pena) ao entrar em um lugar“. Lázaro cita dados sobre o genocídio da população negra – “dos 30 mil jovens mortos no Brasil, 77% são negros. Caro leitor, você acha isso “mera coincidência”? “Mulheres negras recebem menos anestesia, pois seria mais resistentes à dor“. Nesse momento, se os leitores não negros não compreenderam a dimensão “da coisa toda”, aqui o Autor faz questão de deixar bem claro!

“Meus amados amigos brancos, vocês tem, sim, que pensar muito sobre isso ao educar seus filhos. Afinal, eles têm que ter o compromisso de tornar toda essa merda um lugar um pouco melhor. Têm que saber que tem gente que recebe tapa na cara de polícia com dez, doze anos de idade, só por uma suspeita”.

Não me lembro de ter sorrido muito nesse livro, afinal, falar de dor não tem graça. Conforta-me saber que hoje tem alguém dando voz à comunidade negra, que não é só eu que fico sem respostas (indignada) quando algum negro vem sem qualquer empatia falar sobre sua “história de exceção”, fico feliz demais em saber que tem um negro reconhecido internacionalmente (graças a Deus), lutando por nós (Sim! Este livro desmorona muros, outrora inalcançáveis), meros mortais. 

Parece óbvio, mas não é. Neste livro descobri que você “é de verdade”. Gratidão Lázaro!

Continue Reading

Porque não escrevo para crianças

Perguntaram se eu não escrevo para crianças. Depressa disse que não. Mas logo me peguei pensando, por que não? Foi tão espontâneo essa negativa, estranho. Na verdade, bem lá no fundo eu sei. Tenho medo. Imagina uma criança lendo meu eu. Sim, porque crianças lêem nossa alma. Elas nos desconcertam, nos inquietam,  desconstrói a gente num sorriso, num simples gesto. Elas descobrem nossos medos mais secretos, desmoronam nossas defesas com descaradas perguntas. O que eu poderia escrever para elas? Ah se soubessem… A grande verdade é que os adultos são muito mais inseguros que vocês, a diferença é o orgulho e a maquiagem. Disfarça quase tudo. Reparem que evitamos olhar nos olhos. Velha tática, para vocês não enxergarem nossa alma.

Continue Reading

É possível florescer na lama?

Outro dia passei pela rua e por certo tempo fiquei observando as árvores na beira da calçada. Uma em especial me chamou atenção. Era tão verde, tão viva, parecia de plástico de tão perfeita. Olhei ao seu redor e só tinha sujeira e lama. Como pode? Questionei. Lembrei da flor de lótus. A lógica da vida é que “somos produto do meio”, não é mesmo? Uma análise complexa em menos de um minuto de observação. Só pude concluir uma questão: somos aquilo que nos permitirmos ser. E quem dera de fato se nos permitíssemos… Ser aquilo que foi desenhado para nós desde antes da nossa concepção. Cumpriríamos nosso propósito, nossa missão. Independentemente de companhia e circunstâncias, sim é possível florescer na lama.

Ps. Na dúvida, observe a natureza.

Continue Reading

Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas

Quanto tempo não é mesmo?! Esses dias estava pensando sobre o longo processo que passei até me assumir “negra“, inclusive isso será um capítulo do meu segundo livro… 

“Demorou para eu entender,
Que as brincadeiras da infância inferiorizavam minha cor, minha identidade.
Ridicularizavam minha ancestralidade.
Me diz… Qual a graça em brincar de diminuir alguém?

Foi um processo longo até eu conseguir não mais me autodenominar
Morena, moreninha, cor de jambo, mulata…
Demorou para eu repreender quando me chamam de
Escurinha, “da cor”…
Negro, negra. Essa afirmação nos fecham as portas todos os dias”.

Hoje, entendendo e aceitando quem eu sou fica tudo mais fácil, mas nem sempre foi assim. Na infância e na adolescência eu me autodenominava “morena” ou no máximo “morena escura”, pensa! Chega me dar arrepios, sinto vergonha disso! Mas foi assim que aprendi, assim que me chamavam, nunca tive referência, representatividade sobre minha verdadeira identidade, ou se tive, não me recordo.

Posso dizer que fui uma negra “privilegiada”, exceto um ano e meio que estudei em escola pública, todo meu Ensino Fundamental e Médio foram em colégios particulares. Claro, eu era a cota, em uma turma de 40 alunos em média, 3, contando comigo eram negros. Normal né? Tem escolas que tem apenas 1 ou nenhum. Esse é o nosso cenário, um país miscigenado, mas quando você analisa direitinho, quem ocupa lugares “privilegiados”, em sua massacrante maioria, são pessoas não-negras. Por que será?

1996 – 2ª série primária

Enfim.. Os privilégios que nos cegam e nos tornam egoístas. Já era péssimo eu não me “ler” como negra, mas pior ainda eram meus discursos: “não sinto-me discriminada, meus colegas de sala de aula cantam navio negreiro para mim, mas eu levo na brincadeira“, “sou contra as cotas raciais, a cor de pele não faz a pessoa menos ou mais capaz“. Eu “zoava” qualquer negro que tivesse a boca mais grossa que a minha, o nariz mais largo que o meu, a pele de tom mais escuro, o cabelo que não formava cachos… Colocava-me numa posição de superioridade sobre quaisquer aspecto físico que eu considerasse-me “melhor”, quer dizer, mais próximo do padrão eurocêntrico, dito como perfeito, correto. 

Hoje, quando ouço um negro chamando outro negro de “macaco”, penso, até quando vamos nos degradar, machucar. Até quando nós, negros, vamos achar que é “normal” brincar de inferiorizar o fenótipo do outro, comparar à animais. Fomos ensinados que isso é brincadeira, mas não é! Isso é violência. Se você faz isso, pare imediatamente com isso! Pare, por favor.

Aprendi na escola que racismo é mimimi e cresci acreditando nisso como verdade relativa, sim, porque eu tinha minhas dúvidas…  Eu fazia o que podia para ficar “socialmente aceitável“, isso era quase inconsciente, óbvio, quanto mais próximo ao padrão eurocêntrico eu me aproximasse, mais bem tratada eu seria. Quando criança, as pessoas são mais cara de pau, davam sempre um jeitinho de me fazer uma trança, mas quando cresci diziam que eu ficava “mais bonita” com o cabelo escovado. Já passou por isso amiga? Dói. O racismo em locais privilegiados é velado, mas não diminui em nada nossa dor. 

Já contei aqui como eu passei pela transição capilar, na verdade nem foi pelo fato de querer assumir meu cabelo natural, foi porque não aguentava mais alisar o cabelo. Mas depois que meu cachos começaram a brotar e eu perceber a reação e comentários de pessoas sem noção, eu entendi o que é ser negro nesse país. Percebi que anos convivendo em locais privilegiados me tornou cega e egoísta a ponto de ignorar a realidade que me cerca

Um não negro descendo o morro as cinco da manhã está indo trabalhar, mas se for um negro é revistado, haja vista que sua pele preta já o faz suspeito, afinal esse é o “esteriótipo de ladrão”. É fo**! Negro em lojas de grife, segurança fica de olho ou então é “gentilmente” encaminhado a seção de desconto pela vendedora. Mas surreal mesmo é quando o negro é o dono da marca e é barrado em desfile pelos próprios seguranças… Bizarro! 

O rapper Evandro Fióti denunciou um episódio de racismo durante esta edição da São Paulo Fashion Week, Em uma publicação no Facebook, ele explica que foi barrado por um segurança no desfile da Lab Fantasma, marca criada e administrada por ele e o irmão, Emicida. “Ser preto é ser barrado pelo segurança do evento até mesmo quando é da sua marca e com pulseira…”, escreveu.

No primeiro desfile da LAB, o Emicida cantou”Fiz com a passarela o que eles fez com a cadeia e com a favela… Enchi de preto“. Manas, já assisti esse desfile umas 10 vezes, e me arrepiei e chorei todas elas. Sei que não tive culpa de ter negado minha identidade durante anos da minha vida, mas sinto vergonha, há eu sinto! Deus é tão bom que me permitiu passar por todo esse processo para que hoje, na posição de advogada, entre olhares tortos dentro do fórum por causa do meu cabelo, eu ter a capacidade de identificar quem é preso porque delinquiu e quem é preso por ser “da cor”. 

A carne negra é a mais barata do mercado, já dizia Elza Soares.

Continue Reading